Author Archives: Marcus Nakagawa

Promoções de começo de ano e o consumo consciente

Promoções de começo de ano e o consumo consciente

Estamos no começo do ano e já foram o Natal, as festas das firmas, os amigos secretos, os presentes da família, o presente do papai Noel, ufa!

Agora começam as promoções de começo de ano das lojas que não conseguiram vender seus produtos durante a Black Friday e o Natal. Tenho alguns amigos que, inclusive, deixam para comprar todos os presentes somente nesta época devido aos descontos.

A Black Friday passou e, segundo o painel da Ebit/ Nielsen, o faturamento no comércio eletrônico do ano passado chegou a R$ 3,2 bilhões, um aumento de 23,6% em relação a 2018. O Natal também teve um crescimento de 9,5% no faturamento nominal em 2019 e foi considerado a melhor desde 2014 de acordo com a Alshop (Associação dos Lojistas de Shopping Centers). Mas será que estamos consumindo muito mais de uma forma mais consciente? Ou estamos somente consumindo? E de quem estamos consumindo?

A ideia aqui não é ir contra ao consumo, mas sim ao consumismo, aquele impulso de comprar sem pensar, sem saber se você tem dinheiro para pagar, sem saber o que fará com o produto ou serviço, mas sim, confirmar se você, realmente, precisa daquele produto naquele momento. Muitas vezes acabamos comprando sem ter o dinheiro na conta, ou ainda, sem precisar efetivamente. Utilizamos como forma de compensar uma frustração ou para realizar uma felicidade momentânea. Tem até aquele “meme”, ou frase que, com certeza, você já escutou: “Você compra o que não precisa, com o dinheiro que você não tem, para impressionar pessoas que você não conhece e não gosta, a fim de tentar ser uma pessoa que você não é.”

Pensar no seu consumo e se planejar, agora para 2020, é o que os consultores e planejadores pessoais financeiros primeiramente falam. Eles ensinam que para você ter uma boa saúde financeira é fundamental combater os seus impulsos consumistas, que muitas vezes acabam até com a sua saúde mental.

Além do financeiro, não podemos esquecer do impacto social e ambiental que você tem a cada compra. Podemos dizer que consumo consciente e mais sustentável é quando você “elege” um produto ou serviço não só pelo preço e pelos atributos funcionais, emocionais e de diferenciação, mas também pelo impacto positivou e/ou negativo que ele está causando pelo meio ambiente e pela sociedade. Não só o produto ou serviço, mas também a empresa que está por trás. E quando analisamos a empresa temos que ter cada vez mais consciência de todo processo de extração, produção e destinação final. O que o pessoal tem chamado de cadeia fechada ou economia circular do produto ou serviço.

Um ótimo documento que trabalha com a educação para o consumo sustentável é o do IDEC, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (http://www.idec.org.br/uploads/publicacoes/publicacoes/Manual_completo.pdf). E o Instituto Akatu de Consumo Consciente possui várias pesquisas mostrando que o brasileiro está aprendendo este comportamento. O último estudo, de 2018, que é o Panorama do Consumo Consciente no Brasil, mostrou que dentro da metodologia de 13 comportamentos analisados, houve um crescimento significativo no segmento de “consumidor iniciante” como eles denominam, de 32% em 2012 para 38% em 2018: (https://www.akatu.org.br/noticia/pesquisa-akatu-2018-traca-panorama-do-consumo-consciente-no-brasil/). E ainda, quem ficou interessado para ver como anda o seu grau de consumo consciente pode testar e ajudar a pesquisa em: http://tcc.akatu.org.br.

Numa pesquisa com 1.200 entrevistados no Brasil, de 2019, realizada pela Ipsos em parceria com a ESPM, Instituto Ayrton Senna e Cause, apresentado no 3º. Fórum Marketing de Causa, que está disponível no site do evento (https://www.forummarketingdecausa.com),   mostrou que a população está atenta à atuação socioambiental das empresas. Mais da metade (58%) está vendo a empresa como cidadã se ela reduzir o seu impacto ambiental, por exemplo, e 41% entende que a empresa tem que também cuidar da sua cadeia de valor, 39% promover campanhas de doação e 39% entendem a empresa como cidadã se ela garantir a não discriminação de raça e gênero.

Ou seja, o consumo consciente e a verificação da empresa está se desenvolvendo no nosso país. E se, depois de todos estes argumentos sobre consumo, mesmo assim você ainda precisar comprar algum presentinho que faltou do ano passado, que tal escolher empresas mais responsavelmente social e ambiental, ou ainda, escolher negócios de impacto positivo? Para isso existem alguns locais para você pesquisar sobre.

Para começar que tal buscar empresas certificadas no Sistema B, ou seja, organizações que têm produtos e serviços que passaram por uma validação de especialistas em impacto socioambiental: (https://sistemab.org/empresas-b-america-latina/?fwp_presencia=brasil).

Um trabalho muito bacana foi a curadoria da Change For Good que fez um catálogo Gift Guide 2020, que coloca produtos e serviços mais sustentáveis dentro de categorias: infantil, feminina, masculina, geral, serviços, experiências e uma sessão especial para amigos secreto. Tem até alguns descontos, vale à pena dar uma olhada: (http://atuacaonomundo.com.br/2019/11/25/gift-guide-2020/).

Para produtos mais tradicionais com uma “pegada” mais ambiental, até o grande portal Mercado Livre fez uma aba para produtos com impacto positivo que tem desde energia solar, composteiras, alimentos orgânicos, beleza sustentável, consumo de energia mais eficiente, lixo zero – reutilizáveis, entre outros. (https://ofertas.mercadolivre.com.br/produtos-sustentaveis)

Que tal como melhoria para 2020 consumir de uma forma mais sustentável e consciente? Basta mudar nossa mentalidade, pesquisar mais e não sermos “pegos” pelo impulso. Viva mais sustentável, consciente e mais saudável. Bom começo de ano!

Mercenário ou missionário empresarial de uma causa?

Mercenário ou missionário empresarial de uma causa?

Ouvi este termo em um debate que promovemos no evento Soul ESPM 2019, vindo de uma amiga de um negócio de impacto social maravilhoso.

Fui buscar no oráculo dos termos e fontes, e achei um livro, artigos, músicas e afins, mas não muito focados no empresarial e me inspirei para escrever um pouco mais sobre este tema.

Segundo alguns dicionários, mercenário significa aquele que age, serve ou trabalha somente por dinheiro ou por vantagens que lhe são oferecidas; um interesseiro que é movido apenas pelo interesse pessoal e material. No âmbito militar, é aquele que realiza um trabalho a partir de um valor ou salário ajustado; soldado que serve por dinheiro. E para missionário, aquele que se dedica a propagar uma fé religiosa; aquele que propaga uma ideia, um princípio, uma causa etc. com o fim de angariar adeptos. Ainda temos termos como pregador e propagandista; aquele que missiona.

Sobre esta discussão já ouvi muita gente falando em evangelizar para a causa, ou pregar as questões socioambientais. Além do famoso termo que “podemos, ao mesmo tempo, trabalhar para uma causa e ganhar dinheiro”. E nestes vários fóruns, debates e palestras, já ouvi falar, também, que podemos trabalhar para vender, ganhar o lucro da empresa e ajudar os outros. Por outro lado, também já ouvi pessoas falando em vender sabonete ou iogurte com um pouco de crianças necessitadas ou animais abandonados. “Vender a pobreza e a doença junto com os produtos pode ser lucrativo”, esta foi a frase mais impactante que ouvi.

Esta é uma linha tênue? Será que temos a maturidade e casos suficientes para analisar estes tipos de trabalhos, projetos, ações e promoções?

Para as empresas que têm produtos e negócios considerados tradicionais, que não foram diretamente criados para realizar um impacto socioambiental, uma das formas de se trabalhar essa tal de causa é por meio do marketing relacionado à causa ou marketing de causas. A ideia deste conceito é uma aliança entre uma empresa e uma organização da sociedade civil, conhecida também como ONG. Neste caso, haverá um ganha-ganha, utilizando o poder de suas marcas para benefício mútuo. O mais utilizado atualmente é quando uma empresa coloca um produto para vender e doa parte desta venda para uma organização. Um dos casos mais antigos é a famosa campanha Mc Dia Feliz, realizada em agosto e, neste ano, foi sua 31ª edição, ou seja, mais de 30 anos da atividade. Em 2018, foram mais de R$ 24 milhões arrecadados e em 2019 serão beneficiadas 59 instituições apoiadas pelo Instituto Ronald MCDonalds e o Instituto Ayrton Senna. A mecânica é simples, o valor de cada sanduíche Bic Mac, menos os impostos, é arrecadado e doado para essas organizações.

Reforçando este conceito e o uso dele para as empresas, o terceiro estudo de Marketing Relacionado à Causa, lançado em outubro de 2019 pela Ipsos, ESPM, Instituto Ayrton Senna e Cause, mostra que o brasileiro não conhece muito bem este termo, porém, 77% dos 1.200 entrevistados são favoráveis ao termo e 34% das pessoas consultadas disseram ter comprado, nos últimos 12 meses, produtos que destinavam parte de seu valor a causas sociais, culturais ou ambientais. E ainda, 23% afirmaram ter preferido comprar um produto que contribuía para uma causa, em vez do seu concorrente. Ou seja, é uma forma de se trabalhar a marca e apoiar uma causa.

Outro formato é o apoio direto a uma organização ou a um projeto, neste modelo de Investimento de Impacto Social, a empresa Ypê tem feito a parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica e já plantou mais de 850 mil árvores, desde 2007, com o Projeto Floresta Ypê. A empresa tem até um comercial antigo e muito divulgado na TV aberta, falando que novas árvores são plantadas a cada produto comprado. Além de outros projetos que apoia com a Fundação, esta parceria e muita comunicação gerou uma lembrança da marca atrelada ao meio ambiente. A pesquisa Top of Mind 2019, do Datafolha, realizada com 6.618 pessoas de todo o Brasil, em 197 municípios, mostrou que as empresas Ypê e Natura foram lembradas por 5% do público quando o assunto era meio ambiente, a Ypê chegando a 7% no critério desempate devido à margem de erro. É a 13ª vez consecutiva que a Ypê vence, liderando todas as edições da pesquisa nesta categoria, mostrando que o investimento e o ganha-ganha está sendo importante para a marca e para a Fundação.

Mas imaginem criar uma empresa com o cunho socioambiental, ou seja, já criar produtos e serviços que resolvam algum problema da humanidade ou do planeta. Estes são os negócios de impacto social e/ou ambiental. A pesquisa da Pipe Social de 2019, realizada com 1.002 negócios no Brasil, mostrou que essas organizações são novas, pois menos da metade tem mais de cinco anos, só 26% delas, e que 43% ainda não tem faturamento. É um campo novo, porém, já existem referências de empresas que dão certo, como o caso da Boomera. Henrique Brammer foi o campeão do Prêmio Empreendedor Social 2019, parceria da Folha de São Paulo com a Fundação Schwab, mostrando que trabalhar com resíduos – mais conhecidos como lixo, reciclagem, grupos de catadores, aterros sanitários, de uma forma circular e inclusiva socialmente pode ser rentável e, ao mesmo tempo, resolver este grande problema do país.

Lembrando que, numa pesquisa de 2019, feita pelo WWF, o Brasil é o 4º maior produtor de lixo plástico do mundo e recicla apenas 1%, por exemplo. Outra referência que o Prêmio coloca como Empreendedor Social de Futuro foi a Carambola de Gustavo Glasser, que tem uma história pessoal fantástica de superação contra preconceitos e montou um negócio de T.I. para inserir todos os tipos de pessoas, em um mercado dominado por homens brancos, heterossexuais e de classe média-alta.

Pois é, talvez a questão não seja definir se todos estes casos são de mercenários tentando se “aproveitar” de uma causa ou de missionários usando o sistema atual da mais valia financeira para resolver problemas sociais e ambientais. Neste momento de desenvolvimento e evolução desse tema, talvez seja cedo demais para separar e definir. E, talvez, qualquer conclusão seja muito precoce, bruta ou insipiente.

Talvez o mundo e o nosso querido país precisem atualmente de menos polarização e de mais integração entre conceitos, ideologias, formas de pensar e agir. Principalmente, se o foco é resolver problemas sociais e ambientais.

*Marcus Nakagawa é professor da ESPM; coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (CEDS); idealizador e conselheiro da Abraps (Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade); e palestrante sobre sustentabilidade, empreendedorismo e estilo de vida. Vencedor do Prêmio Jabuti 2019/Economia Criativa com o livro 101 Dias com Ações Mais Sustentáveis para Mudar o Mundo e co-autor dos livros: Marketing para Ambientes Disruptivos e Nosso mundo: não temos plano B. www.marcusnakagawa.com