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Sustentabilidade e Recursos Humanos na PME

O empreendedor, por meio de sua Pequena, Micro e Média Empresa – PME pode trabalhar diretamente com as questões de sustentabilidade, pensando e atuando também em temas sociais e ambientais, não somente o financeiro. Entendo que a maioria deve pensar “mas, puxa vida, eu mal dou conta da parte financeira, imagina o restante”.
Não conseguimos tangibilizar mensurar as outras duas áreas tão bem como a financeira, ou melhor, não aprendemos muito bem a fazer isso. Na nossa atual realidademodernidade e sistema vigente temos somente aprendido a apertar botão e adicionar ou subtrair. Infelizmente, o questionamento profundo das áreas sociais, que regem os nossos sentimentos, valores e, algumas vezes, ações, é deixado de lado, e é tratado como um hobby ou uma questão religiosa pontual. E a parte ambiental então, nem se fala, faz parte da nossa tríade do legado: plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho.
Mas somente com este legado, ter um filho, ou criar um filho, ou o que deixar para este filho?
No dia a dia da “vida real” estes tipos de questionamentos muitas vezes nem fazem parte dos nossos pensamentos. Imagina se você ainda tem uma equipe na sua empresa para gerenciar e uma meta para bater.
Já que tocamos no assunto de pessoas, muitas vezes os empreendedores não associam que o cuidar bem da equipe, dar o que a lei exige e mais um pouco, educar o funcionário, entre outras ações são também assuntos de sustentabilidade, ligados obviamente ao pilar social.
Tanto é que os principais indicadores de sustentabilidade como o GRI (Global Reporting Initiative), processo para um relatório de sustentabilidade de uma empresa, ou mesmo os Indicadores Ethos para Negócios Sustentáveis, possuem uma área nas quais são questionadas práticas de trabalho e direitos humanos. No que se refere a direitos humanos, tem muito a ver com as questões de trabalho infantil, trabalho escravo ou análogo a escravo, promoção da diversidade e a verificação se o produto ou serviço pode afetar ou impactar algum ponto da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Já nas práticas de trabalhos, os indicadores são referentes à relação da empresa com os empregados terceirizados; relações com sindicatos; remuneração e benefícios; compromisso com o desenvolvimento profissional; comportamento frente a demissões e aposentadoria; saúde e segurança dos empregados e condições de trabalho; qualidade de vida e condições de trabalho.
Estes questionários são uma base para que a empresa faça uma autoanálise e verifique se efetivamente a organização está dando o devido valor para estes temas ou, como na maioria das vezes, este não está sendo um tópico prioritário. Após esta análise é necessário engajar mais pessoas e buscar pontos de melhoraria e, finalmente realizar as ações e monitorá-las.
Se você está achando que para uma PME é muito difícil pensar em ações concretas de sustentabilidade para a área de recursos humanos, está enganado, comece a buscar mais informações sobre o tema. Um bom exemplo, que consta no site do Centro Sebrae de Sustentabilidade, é a empresa K-jet, que trabalha há 16 anos na indústria de injeção de termoplástico em Belo Horizonte, sendo que 70% do seu faturamento vem da cadeia automotiva. Nesta empresa eles usam telhas transparentes que permitem iluminação natural do interior da fábrica, reduzindo o consumo energético; fazem gestão eficiente hídrica por meio de sistema de captação de água de chuva usada no processo de resfriamento dos equipamentos (enchem dois reservatórios de 11 mil litros de água); e fazem a contratação de mão de obra local. Até aqui tudo bem, porém, como diferencial na área de recursos humanos a empresa permite que o funcionário volte para almoçar em casa para que tenha um maior convívio com a família, mais qualidade de vida etc. Além disso, a empresa também realiza treinamentos, remuneração com diferenciação e tudo o que está na lei.
Realmente é o início do trabalho. Para os empreendedores que não têm um assistente ou secretária para ajudar, vai acabar sobrando mais esta função. Se tivermos uma visão de que estamos gerando emprego, treinando gente e melhorando vidas, conseguimos dizer que o nosso empreendimento está no rumo do tal desenvolvimento sustentável. Um caminhar diário com muita resiliência, sempre acreditando e mostrando os seus valores é que faz valer a pena esta vida de empreendedor.

*Marcus Nakagawa é sócio-diretor da iSetor; professor da ESPM; idealizador e presidente do conselho deliberativo da Abraps (Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade); e palestrante sobre sustentabilidade, empreendedorismo e estilo de vida. www.marcusnakagawa.com

Empreendedor de negócios com impacto social

Atualmente as questões sociais estão tendo relevância cada vez maior no Brasil. As manifestações em 2013 em prol da saúde, educação, transporte e mobilidade, moradia, entre outros, acabaram se chocando com a realidade do padrão FIFA de qualidade da Copa do Mundo de 2014. Muitos achavam que não era possível realizar um evento deste porte envolvendo tantos recursos e cidades do país. A ideia aqui não é discutir este confronto, mas sim a grande mobilização e a visibilidade dos temas sociais do nosso país, seja de uma forma pejorativa ou construtiva.

A resolução destes temas está criando novas oportunidades de negócios e carreiras para aqueles empreendedores que querem realizar algo inovador e que tenha a ver com os seus valores pessoais. Um destes caminhos é desenvolver empresas ou organizações que façam negócios com impacto social.

Este tipo de negócio somado com o tema das finanças sociais foram debatidos durante dois dias em maio deste ano, durante o primeiro Fórum Brasileiro de Finanças Sociais e Negócios de Impacto, realizado na cidade de São Paulo. Com o principal objetivo de fortalecer o ecossistema destas atividades no Brasil, o evento trouxe muitos exemplos, casos de sucesso e pensadores sobre o tema.

É um movimento que está em constante crescimento e já existem muitos empreendedores neste estilo de vida, uma mescla de técnicas de negócios com melhorias sociais e valores pessoais.

Segundo Janelle Kerlin, professora da Universidade do Estado da Geórgia, o conceito de negócio com impacto social incluiria qualquer atividade empresarial que tenha impacto social dentro de sua ação de negócios. Eles podem assumir diferentes formas jurídicas: corporações, empresas limitadas e organizações sem fins lucrativos.

Diferentemente da ideia de negócios sociais do Nobel da Paz Muhammad Yunus, que considera que existem dois tipos de empresas sociais: o primeiro é o de empresas cujo foco é proporcionar um benefício social, em vez da maximização dos lucros para os proprietários. O segundo tipo de empresa social funciona de modo bem diferente: são as que visam a maximização dos lucros e pertencem a pessoas pobres ou desprovidas de recursos. Nos dois casos são empresas necessariamente com fins de lucro.

Mais do que os conceitos e terminologias, esta nova forma de se lidar com a gestão e o empreendedorismo pensando em resolver problemas do mundo é a grande mudança. O que gera nos líderes, gestores e empreendedores a oportunidade de realizar algo com as competências técnicas aprendidas na Academia, juntamente com a sua crença e valores pessoais.

Um ótimo exemplo também é a marca de tênis Vert que, além de bonitos e confortáveis, são desenvolvidos em Paris e fabricados no Brasil, como diz na própria etiqueta. A sua preocupação com o meio ambiente na fabricação, no material, no ponto de venda, e a aposta no comércio justo já rendeu um faturamento de mais de R$ 18 milhões por ano. A empresa criada por dois franceses lançada na Europa em 2004, possui uma fábrica em Novo Hamburgo (RS). Apesar de vários anos no mercado só passou a ser vendido no Brasil em outubro de 2013. Os tênis tem como base o algodão orgânico do semiárido nordestino e a borracha da região amazônica do Acre. A compra é feita diretamente com os produtores, fazendo com que estes recebam até 65% acima do valor de mercado por não ter intermediários. Este é um dos exemplos dos processos sustentáveis na empresa e que ajudam os problemas sociais realizando o desenvolvimento territorial real diretamente com a sua população. Atualmente, a empresa já possui um portifólio de 42 calçados e a produção anual em 100 mil pares no ano de 2013. Isso é aliar negócios com questões sociais e ambientais.

Para reforçar ainda mais esta tendência, temos ações de grandes empresas como a Unilever que fez recentemente uma chamada para o Prêmio Unilever de Sustentabilidade, voltado para Jovens Empreendedores, para incentivar jovens a buscar soluções inovadoras por meio de produtos, serviços ou aplicações sustentáveis e com potencial para ganhar escala, que tenham o objetivo de reduzir impactos ambientais, melhorar a saúde e o bem-estar das pessoas ou melhorar suas condições de vida e trabalho, considerando a de mudanças em seus hábitos ou práticas.

É isso aí, vamos juntar cada vez mais empreendedorismo, negócios e impacto social. E você, qual problema do mundo vai ajudar a resolver?

*Marcus Nakagawa é sócio-diretor da iSetor; professor da ESPM; idealizador e presidente do conselho deliberativo da Abraps (Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade); e palestrante sobre sustentabilidade e estilo de vida. www.marcusnakagawa.com

Sustentabilidade e Governança na PME

A sustentabilidade tem várias facetas que ultrapassam as questões ambientais como a maioria das pessoas pensa. Este termo tão utilizado pelas campanhas publicitárias de empresas e como bordão pelas organizações não governamentais para que o planeta seja salvo e os animais sejam preservados é o que está no imaginário coletivo do mercado. Lógico que isso é importante, porém, não deve ser o único ponto trabalhado neste conceito.

Segundo a pesquisa do Sebrae de 2012 com cerca de 3,9 mil pequenos empresários, 87% dos entrevistados afirmam que a sustentabilidade está fortemente associada a questões ambientais. Mas do que adianta uma empresa ter estas questões muito bem relacionadas ao planeta, se dentro de casa ela não sabe como funciona a estrutura da sua gestão ou como funciona quem lidera quem, ou ainda quais são os indicadores de gestão e como isso está sendo controlado. Para isso existe a ferramenta da governança que, segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), é “o sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo as práticas e os relacionamentos entre proprietários, conselho de administração, diretoria e órgãos de controle. As boas práticas de Governança Corporativa convertem princípios em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor da organização, facilitando seu acesso ao capital e contribuindo para a sua longevidade.”

Será que para a pequena e média isso pode funcionar? Ou é mais uma ferramenta dentre tantas para gerenciar?
Contribuir com a longevidade da empresa é o sonho de todo empresário, portanto, buscar uma sustentabilidade temporal pensando nos seus herdeiros é o ideal. Para isso, a primeira tarefa para a governança é ver quem é responsável por o que e quem toma decisão para quais assuntos. Para uma PME é importante separar as decisões gerenciais (ligadas mais ao dia a dia ou de curto prazo, decisões mensais e trimestrais, por exemplo); decisões diretivas (da diretoria ou mais em médio prazo, um ano ou dois, por exemplo); e decisões societárias (dos sócios ou mais em longo prazo, cinco anos, por exemplo). Para isso é necessário realizar reuniões e encontros que sejam destinados a cada assunto, uma para o gerencial, uma para o diretivo e a outra reunião de acionistas. De preferência, grupos de trabalho ou pessoas que tomem estas decisões separadamente. Se a empresa não tiver muitas pessoas para ajudarem nestes vários processos, vale a pena chamar para as decisões societárias, por exemplo, um conselheiro externo e talvez criar um conselho consultivo, sendo remunerado ou não. O importante é que as divisões das reuniões sejam muito claras: sobre o dia a dia (operacional); sobre futuro da organização, assuntos de divisão de lucro etc. (estratégica).

Ter uma estrutura hierárquica ou um organograma que seja condizente com a realidade da empresa é fundamental. Se caso a PME tiver um quadro pequeno de funcionários, é possível buscar uma gestão mais participativa e chamar alguns colaboradores para ajudar, criando grupos de trabalhos temáticos, como um grupo de trabalho para melhoria na gestão das pessoas, ou um grupo de trabalho para aumentar as vendas e assim por diante. Lógico que beneficiar a cada vitória estes grupos é fundamental.

Para cada instância destas é fundamental ter um cronograma anual de reuniões, sejam elas quinzenais, mensais, trimestrais ou semestrais. Com isso, nas várias hierarquias as pessoas já terão nas suas agendas estes encontros programados.

Registre tudo e deixe uma pessoa ou um grupo sendo o “guardião” e disseminador dos documentos mais importantes e das atas de reuniões mais importantes. Por exemplo, o Código de Conduta da empresa, que mostrará como as pessoas devem se comportar no ambiente de trabalho. Nada mais é do que a formalização da cultura já existente da empresa. Documentos como balanço anual, ações institucionais realizadas, clippings de matérias em jornais, enfim, tudo aquilo que a empresa produz no seu processo, além do seu serviço e produto.

Ter um bom relacionamento com os públicos envolvidos como fornecedores, funcionários, governos, comunidade no entorno, entre outros, é fundamental para a longevidade da empresa.

Esses são alguns passos para que a tal da sustentabilidade nas questões de governança seja realizada. Qual PME não sonha em ter uma longevidade do seu negócio? Isso sim é sustentabilidade.

*Marcus Nakagawa é sócio-diretor da iSetor; professor da ESPM; idealizador e presidente do conselho deliberativo da Abraps (Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade); e palestrante sobre sustentabilidade e estilo de vida. www.marcusnakagawa.com

Sustentabilidade também para a vida do empreendedor

*Marcus Nakagawa

A sustentabilidade está em pauta nas grandes empresas com os seus relatórios GRI (Global Reporting Initiative), departamentos responsáveis pelo relacionamento com cada stakeholder, investimento social privado, projetos de eco eficiência, construções com certificação LEED e AQUA etc. Nas pequenas e médias empresas, o movimento vem começando, principalmente orientado e solicitado pelas grandes empresas que precisam ter a sua cadeia de fornecedores e distribuidores cada vez mais de acordo com o desenvolvimento sustentável. Porém, para estas empresas pequenas e médias, que geralmente são geridas por empreendedores ávidos por novidades e desafios, acaba sendo mais uma tarefa dentre tantas a se fazer num dia de somente 24 horas.

Peter Drucker, um dos papas da gestão, coloca que qualquer indivíduo que tenha à frente uma decisão a tomar pode aprender a ser um empreendedor e se comportar como tal. Diz ainda que o empreendimento é um comportamento, e não um traço de personalidade. E suas bases são o conceito e a teoria, e não a intuição. O que mostra que em mais esta decisão o empreendedor terá que entender, estudar e ir atrás do verdadeiro sentido da sustentabilidade.

Mas a ideia deste texto não é falar do conceito do tripé da sustentabilidade baseado nos fatores econômicos, sociais e ambientais em uma empresa, seja ela grande ou pequena. Ou então, dizer do entendimento do assunto pelas PME´s que, segundo a pesquisa do SEBRAE de 2012, 65% destas empresas entendem medianamente sobre Meio Ambiente e Sustentabilidade.

Na verdade, estou questionando a sustentabilidade do empreendedor que trabalha mais do que as 40 horas semanais oficiais da sua empresa em busca de cumprir suas entregas e alcançar o seu sonho de liberdade na gestão e do chefe; e de como é mais difícil falar em sustentabilidade em uma pequena e média empresa se o próprio empreendedor não entende isso dentro da sua vida pessoal. Isso é vida real, não sonhos que são vendidos em jornais, revistas, vídeos e casos lindos de sucesso!

Acompanho diversos estilos de vida de empreendedores que misturam toda a sua vida pessoal com o seu negócio, inclusive, contas a pagar, sócios, empregados, família, conversas com amigos e assim por diante. A mistura é quase que insustentável financeiramente, imagina então ambiental e socialmente.

Para isso, primeiramente, se você é um empreendedor ou está pensando em ser, tem que entender o estilo de vida que você quer levar. Pensar no estilo de vida é fundamental, pois para termos muitas posses monetárias precisamos trabalhar muito e investir muitas horas trabalho. Se você quer uma vida mais simples, não estou dizendo simplória, a ideia é ter menos bens materiais e mais tempo para fazer o que você gosta. Pensar no financeiro e separar sempre a empresa do pessoal é fundamental. Ter clientes, vendas e entregas é a base de qualquer negócio lucrativo e para a sustentabilidade do empreendedor esta também é o básico.

Sei que já é difícil ter este básico, mas muitas vezes é porque não temos alinhados os outros fatores pessoais como saúde, família, gestão do conhecimento, espiritualidade, lazer, esporte etc. E isso faz com que atrase ou atrapalhe os negócios. Ficamos presos tentando fazer tudo mais ou menos. O ideal é ir acertando cada um, passo a passo, de uma forma planejada para que, de forma equilibrada todos sejam bem feitos.

Para ter a sustentabilidade na vida do empreendedor não há uma receita única, pois varia caso a caso, mas para sustentar um estilo de vida e um negócio (ou vários) precisamos ter equilíbrio em todos os principais pontos da nossa vida (saúde, lazer, amor, espiritualidade etc.) e fazer uma boa gestão de stakeholders (públicos de interesse) tais como os nossos filhos, amigos, esposas, maridos, parentes, sócios etc.

Não podemos perder o foco do sonho a perseguir, caso contrário será o fim do empreendedorismo.

Marketing de causa, ferramenta para agregar valor social e sustentável PME´s

*Marcus Nakagawa

Um empreendimento social é aquele que trabalha diretamente com causas sociais e/ou ambientais, como ONGs, associações filantrópicas, fundação empresarial, entre outras que têm em sua missão, visão e valores o trabalho direto para resolver problemas do mundo. Estas não visam o lucro, mas sim o benefício ao seu público alvo final, sejam eles crianças, adolescentes, árvores, comunidades, tipos de animais etc. São geralmente geridas por meio de convênios governamentais, doações de pessoas físicas, incentivos fiscais, patrocínio e doação de empresas.

E é nestes dois últimos quesitos que quero focar. Uma empresa pode fazer doações e apoiar este tipo de organização da sociedade civil agregando valor à sua imagem institucional, ao seu produto, se beneficiando de leis de incentivo e ainda deixando o funcionário mais motivado e engajado, uma vez que faz parte de empresa que trabalha com causa social e sustentável.

Esta ferramenta é chamada de marketing relacionado à causa, que de acordo com o IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social)  é colocado como “uma parceria comercial entre empresas e organizações da sociedade civil que utiliza o poder das suas marcas em benefício mútuo”. O Instituto relata que esta ferramenta alinha as estratégias de marketing da empresa com as necessidades da sociedade, trazendo benefícios para a causa e para os negócios. E pode ser feito de duas maneiras, a empresa fazendo e desenvolvendo o seu próprio projeto de investimento social ou então uma parceria com uma organização da sociedade civil em um projeto, que, seja ele em parceria ou próprio, precisa estar alinhado com a missão, visão e valores da empresa.

Temos alguns exemplos de sucessos como as sandálias Havaianas que fizeram parceria com o IPÊ  (Instituto de Pesquisas Ecológicas) e, desde julho de 2004, lança coleções de sandálias estampadas com animais em extinção, as Havaianas-IPÊ. Os modelos desta coleção são comercializados em vários países e isto visa também levantar fundos para ações de conservação da fauna brasileira por meio do Instituto, já que 7% das vendas líquidas desta coleção são destinadas ao fundo. Até dezembro de 2013, já foram comercializados mais de 10 milhões de sandálias e destinados mais de cinco milhões de reais para o fundo institucional do IPÊ.

As próprias ONGs nos seus sites colocam a possibilidade destes tipos de parceria e o formato que pode funcionar. Elas consideram neste tipo de parceria uma oportunidade de colaborar com a causa e principalmente ajudar a arrecadar recursos para a operação das suas atividades. A Fundação Dorina Nowill para Cegos, como exemplo, coloca alguns casos em seu site, mostrando que qualquer empresa que queira ser sua parceira pode utilizar esta ferramenta para agregar valor social e sustentável a sua marca.

O ganha ganha é  certo se a empresa entender a importância desta ação. Com isso poderá investir pesadamente em comunicação, assessoria de imprensa, mídias sociais e afins, colocando a marca em evidência com estes valores.

Outro exemplo é a empresa Ypê, de produtos de limpeza como detergentes, sabão em pó, entre outros, que recebeu mais uma vez o prêmio Top of Mind 2013, do jornal Folha de São Paulo, na categoria Meio Ambiente. Este prêmio mostra as empresas mais lembradas do país espontaneamente pelos consumidores em diversas áreas de atuação. Muito desta lembrança, além das atividades ambientais corretas da empresa, vem também graças a parceria que a empresa tem com a Fundação SOS Mata Atlântica para plantios de árvore. A Ypê acabou divulgando bastante na mídia este projeto e agora colhe os seus frutos.

As PMEs têm que se inspirar nestes casos e começar a buscar parcerias com ONGs próximas ou que tenha a mesma missão e valores. Este tipo de ação não é só para grandes empresas, existe a possibilidade de se fazer um bom projeto com um baixo investimento. Basta o empreendedor dar foco nesta ação, buscar um bom projeto e parceiro (ONG) e perseguir este diferencial de mercado como se fosse qualquer outra ferramenta de comunicação.

Enfim, é uma ferramenta de marketing que agrega valor à marca e ainda ajuda o desenvolvimento sustentável do planeta e do ser humano. Acho que vale a pena, não?

Empreendedor de negócio sustentável

Quando pensamos em um negócio sustentável nos dias de hoje, acabamos lembrando de uma empresa que tem boa rentabilidade e dá um retorno considerável aos seus acionistas. Ou se você começar a pensar mais a fundo lembrará também daquelas empresas que trabalham com as questões ambientais e afins. Na pesquisa Datafolha para o prêmio Folha Top of Mind, existe também a categoria Top Meio Ambiente, na qual são mencionadas pelos entrevistados as marcas por sua atuação na preservação do meio ambiente. Em 2013, das 5.145 pessoas, 7% lembrou da marca Ypê e 5% dos respondentes da Natura. A seguir apareceram Ibama (3%), Greenpeace e Petrobras (2% cada uma); depois Vale, Coca-Cola, O Boticário e Omo (1% cada uma).

A lembrança das grandes empresas e organizações acaba acontecendo porque estas investem bastante em comunicação de massa e também em projetos e ações ligadas ao meio ambiente. A Ypê, por exemplo, tem um amplo trabalho de plantação de mudas de árvores nativas da Mata Atlântica em regiões de mata ciliar, em parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica e fizeram várias propagandas sobre isso, além de suas atividades de rotina ligadas ao tema. E a Natura, que possui produtos ecologicamente corretos, certificados e com processos de produção sustentável bem definidos.

Mas para um pequeno ou médio empreendedor, dá para ser mais sustentável? Ter um negócio que realmente englobe não só as questões financeiras e/ou ecológicas, mas também as sociais? Sustentabilidade é muito mais do que pequenas ações ecológicas ou processos socialmente corretos. É um trabalho de colocar o tema no processo de produção, no relacionamento com os stakeholders (públicos de relacionamento da empresa) e, principalmente, no desenvolvimento de produtos e serviços que sejam inovadores, inclusivos, ecológicos e que (de preferência) resolvam efetivamente problemas do nosso planeta.

Nestas andanças pelo Brasil, conheci um empreendedor totalmente conectado com o tempo de hoje e de amanhã. Ele fabrica maquinário para a produção de tijolo, blocos e pisos ecológicos, e desenvolveu um processo que aproveita o lixo para fazer tijolos mais ecológicos ainda. Como? Isso mesmo, fazer tijolos e blocos para construir casas, prédios, galpões, lojas etc. provenientes dos nossos lixos, que atualmente não possuem mais espaços dentro e fora das cidades para o seu descarte.

Entusiasmado, o empreendedor mostrou como faz com que o lixo seja triturado, tratado e vire uma espécie de areia, que segundo ele, é mais resistente que a normal. Com isso, em suas máquinas especiais, a areia que antes era lixo, juntamente com solo e cimento e por meio da prensagem, tomam forma de tijolos ou blocos que se parecem “Legos”, sem necessitar da queima de combustíveis fósseis. Os tijolos se encaixam e, com uma espécie de cola, vão aderindo  entre si.

A ideia deste tijolo e bloco ecológico com base no lixo é elaborar projetos com prefeituras que já estão com seus aterros lotados e querem dar uma destinação mais legítima para os seus resíduos e, assim, produzindo tijolos para construção de casas para a sua população.

Obviamente que o custo deste benefício exige um investimento inicial, como todo bom negócio, porém o retorno é muito valioso, garantiu o empreendedor, não só no resultado das construções, mas como também na gestão dos resíduos, além do ganho de “moedas” políticas com a população, sem esquecer do verdadeiro desenvolvimento sustentável. Isso realmente é um negócio que está se tornando cada vez mais sustentável!

Relatando as atividades sustentáveis das PME

As médias, pequenas e microempresas devem começar a pensar no tema da sustentabilidade para conseguir fazer negócios com as grandes companhias.

Por Marcus Nakagawa*

As atividades relacionadas à sustentabilidade estão se tornando cada vez mais estratégicas para as grandes empresas e as multinacionais. Essas companhias, que possuem produtos e serviços que podem ser acessados em vários outros países, preocupam-se sistematicamente com seus fornecedores locais – grandes, médias e pequenas empresas –, no que se refere às regras mundiais de trabalho decente, de proteção ao meio ambiente, de conduta ética e de gestão transparente, entre outras.

Para certificar-se de que seus fornecedores estão cumprindo as normas de compliance, as empresas criam indicadores, auditorias, linhas de denúncia para questões éticas, mantêm equipes dedicadas à gestão dos fornecedores e de outros públicos de interesse, enfim, várias atividades que fazem o controle e o engajamento dos seus stakeholders. Envolver-se com esses públicos é um fator essencial nos dias de hoje, pois, quanto mais as empresas entenderem sua cadeia produtiva e esses grupos organizacionais de relacionamento, mais elas poderão agregar valor aos seus serviços e produtos.

Uma das formas de essas grandes empresas demonstrarem as atividades que vêm realizando em sustentabilidade e o quanto estão se envolvendo com os seus stakeholders é a produção de um relatório de sustentabilidade. Como mostra a “Pesquisa Internacional sobre Relatórios de Responsabilidade Corporativa 2013”, da KPMG, dentre as 100 maiores empresas em cada um dos 41 países pesquisados, ou seja, as 4.100 principais empresas no mundo, quase três quartos (71%) relatam suas práticas em favor do desenvolvimento sustentável num documento sobre o tema. Trata-se de um aumento de sete pontos percentuais em relação ao início dessa mensuração, em 2011. As empresas no Brasil também estão entre as que relatam esse tipo de atividade, com um índice de 78% das 100 maiores empresas.

A prática de relato não é somente a produção de um bonito livro com fotos da empresa, que vai ficar na estante dos diretores e vice-presidentes. Ela serve também como uma ferramenta de diagnóstico de trabalho, pois, no momento em que se busca a informação para rechear o documento, a avaliação é desenvolvida. Ou seja, nesse momento, descobre-se o que a empresa está fazendo, o que gostaria de fazer, o que não está fazendo e o que está errado.

No conteúdo do relatório, entram temas institucionais da empresa, tais como estratégia, risco e oportunidades; as questões de materialidade; metas e indicadores sociais, ambientais e econômicos; os fornecedores, a cadeia de valor e os outros stakeholders; o engajamento desses públicos de interesse; como funciona a governança corporativa; e como é a transparência e o equilíbrio. O modelo que a maioria dessas empresas utiliza são as diretrizes da Global Reporting Initiative (GRI). No Brasil, segundo a pesquisa da KPMG, 91% das empresas utilizam essa metodologia, o que nos deixa em quarto lugar no ranking mundial de utilização dessas diretrizes, ao lado da Suécia e do Chile.

E quanto às pequenas, médias e microempresas? Elas também podem ter o seu relatório de sustentabilidade?

Cada vez mais é necessário que essas empresas comecem a pensar no tema da sustentabilidade para que consigam fazer negócios com as grandes companhias.

Para que a implementação das atividades chegue a um relatório completo como o que megaempresas fazem, será um pouco mais difícil. Porém, se utilizarem a metodologia de verificação e avaliação dos indicadores, já terão um bom começo. Outro ponto interessante para as PME é utilizar essa ferramenta de comunicação das grandes empresas como um modo de entender os negócios, as diretrizes, a forma como as grandes companhias fazem os seus processos e como tratam os seus públicos de interesse.

Quem sabe numa análise mais profunda a sua PME não consegue descobrir uma necessidade de serviço ou produto que a grande empresa tem e com isso tornar-se mais um fornecedor dela?

Aprendendo sobre sustentabilidade com as grandes empresas

As grandes empresas do mundo são hoje responsáveis por quase todo o movimento da economia, pela influência de políticas públicas e, de acordo com algumas correntes, até pelo direcionamento dos objetivos do planeta. Isso não é tão explícito e pode parecer um pouco de teoria da conspiração. Muitos grupos políticos e sociais colocam estas empresas como vilãs de inúmeros processos e já chegaram a queimar logotipos em rede nacional e internacional.
Algumas ONGs tem acompanhado passo a passo as ações de sustentabilidade destas multinacionais e mostram que estas gigantescas corporações vão de país em país minerando, explorando florestas, mão de obra mais barata, perfurando e deixando um rastro de resíduos químicos e morais. Estas organizações, que defendem a natureza, e as pessoas fazem agora um barulho capilar nas redes sociais, com vídeos, filmes, fotos e super produções para chamar a atenção do consumidor para que boicote o produto destas empresas insustentáveis.

O artigo pode parecer uma apologia a um sistema já quase falido, no qual o modelo de governo é mais forte do que as empresas, porém estas companhias multi territoriais estão acreditando no movimento da sustentabilidade e inserindo efetivamente na sua estratégia de negócio. Seja por amor ou pela dor, as empresas vêm estudando os vários impactos sociais e ambientais nos seus negócios e processos. Um dos mais comentados e pesquisados são as mudanças climáticas.

Imagine o quanto estas mudanças afetam a agricultura e todas as empresas que dependem do cultivo da terra para produzir cereais matinais, sorvetes, enlatados e comida congelada. Se analisamos um outro setor da economia, como o turismo, o problema pode ir se agravando, pois este setor depende de uma regularidade maior das temperaturas, chuvas e nevascas para poder vender os seus serviços.

E quando falamos de água, base da vida humana, o tema fica mais apertado ainda. Uma reportagem do New York Times (NYT) de fevereiro de 2014 mostra que a Coca Cola acabou perdendo um alvará de licença para operar na Índia devido a uma grave escassez de água naquele país, em 2004. Após anos de crescentes prejuízos no balanço da organização, à medida que as secas estão interferindo no seu modus operandi de fazer a bebida mais conhecida no mundo, a empresa começa a entender que a mudança climática é uma força que pode realmente afetar os negócios.

O Banco Mundial coloca o aquecimento global como o principal fator no crescimento das taxas de pobreza no mundo e na redução do PIB das nações em desenvolvimento. Na Tailândia, quatro fábricas da Nike em 2008 pararam de funcionar devido às inundações segundo consta a mesma reportagem do jornal.

Tento imaginar cada empreendedor que também está sendo afetado com todo este processo. Principalmente aqueles que estão inseridos em alguma destas grandes cadeias de valor, seja como fornecedor direto ou indireto de uma grande empresa como esta, como distribuidor, consultor ou outra função que dependa da sobrevivência e do bom movimento da economia ligada à esta cadeia produtiva.

Esta visão de interdependência e não mais uma visão linear é o ponto chave a ser desenvolvido. Uma visão sistêmica no qual um movimento de uma questão crítica ambiental, por exemplo, pode afetar uma grande empresa que concomitantemente afetará outras pequenas e médias.

Não é um efeito cascata, pois enxergo isto não em duas, mas sim em três dimensões. Como coloquei no início, existem muitas pessoas, organizações, empreendedores que estão ligadas, coligadas ou simplesmente orbitando numa multinacional. Estas grandes empresas já estão entendendo este movimento da visão sistêmica atrelado às questões ambientais e a interdependência de outros fatores e organismos para a sua sobrevivência. Será que nós empreendedores também não temos que aprender? E talvez aprender com os erros destas grandes empresas? Vamos, empreendedores, aprender, refletir e atuar!

Viver para trabalhar ou trabalhar para viver?

*Marcus Nakagawa

Este título inicialmente parece uma frase de autoajuda, mas é algo que tenho discutido muito, ultimamente, em sala de aula, com colegas e amigos próximos. Nestas andanças de trabalho de consultorias pela iSetor e de palestras e reuniões pela Abraps tenho me deparado muito com esta pergunta. Encontro dezenas de profissionais que estão cansados de fazer o mesmo, do jeito que faziam há pelo menos três décadas.

É sempre a mesma história: da casa para o trabalho e do trabalho para casa, buscando sempre mais dinheiro para alcançar o valor financeiro e, assim, ter status. Ou seja, é a constante busca pelo consumo de produtos e serviços que, na verdade, não são essencialmente necessários para o dia a dia. E vira uma espécie de círculo vicioso, com os dias passando e as pessoas buscando, cada vez mais, dinheiro e consumindo mais tempo de suas vidas para isso.

Existem alguns movimentos de pessoas que já deixaram de lado o consumo excessivo e vivem uma vida mais simples e com mais experiências. Um artigo bastante interessante publicado pelo New York Times mostra que algumas pessoas estão em busca de um novo estilo de vida para o antigamente cobiçado “american way of life”. E, constantemente, vejo outros artigos que abordam justamente o mesmo tema, aqui no Brasil.

Dessa forma, há uma propulsão para um movimento tímido, que ainda não arrebatou uma multidão. Diria que seus seguidores são uma minoria resistente que vive quase num mundo paralelo para a massa da população televisiva e consumista.

Recentemente, em um trabalho pela minha empresa, juntamente com o meu sócio, fizemos a facilitação para o planejamento estratégico organizacional de um grupo de pessoas que trabalham para uma O.S. (entidade privada, sem fins lucrativos) de música numa capital no nordeste brasileiro.

Durante o trabalho, perguntamos o que os funcionários e gestores gostavam de fazer no seu horário de lazer, e por incrível (para não dizer óbvio) as frases mais frequentes foram “ouvir e tocar música”, além de “estar com pessoas (amigos e família)” e “ensinar”. Este grupo era formado mais ou menos por 50 pessoas das mais diferentes áreas, músicos, administradores, educadores, montadores, produtores, técnicos, serviços gerais etc.

Nesta organização, o principal foco é a busca da mudança na vida de jovens e crianças por meio da atividade e aprendizagem coletiva da música para o seu desenvolvimento pleno. O resultado paralelo, além da transformação social, é de músicos maravilhosos em algumas orquestras dentro deste estado federativo do nosso país. E tudo isso financiado pelo Estado!

Na facilitação, enquanto contavam do seu trabalho ou do que achariam que poderiam melhorar nos projetos e na organização, seus olhos brilhavam e uma energia positiva vibrava no ar. Meio místico, porém incontestável. Todos realmente estavam antenados e concentrados no exercício que fazíamos, pois buscávamos melhorar a organização e o seu dia a dia. Sempre focando o público e a missão da O.S.

Parece meio romântico, porém estas pessoas estavam fazendo o que realmente gostam e acreditam. Ao longo da sessão muitos frutos e transformações foram citadas, como o aluno que virou instrutor ou algum jovem músico que foi fazer carreira internacional, pois descobriram uma aptidão e uma paixão.

Viver para trabalhar é uma escolha que temos que fazer, sem ser influenciados por fatores externos, pressões sociais e status. Envolver-se em algum projeto social, ambiental, fazer um voluntariado ou algo assim pode ser uma forma de escapar da sua realidade, se você não pode se dar ao luxo e viver somente naquele trabalho que realmente você almeja.

Outra forma é planejar uma carreira focada nestes temas ou já direcioná-la para tal. E quem sabe não fazer alguns trabalhos voluntários ao longo da carreira e depois, quando aposentar, ficar full-time. Ou ainda elaborar um projeto social ou ambiental podendo se transformar num empreendedor social. Ou então fazer um negócio social.

O importante de todas estas conversas e discussões destas semanas é que precisamos continuar refletindo, ampliando as nossas percepções e pesquisando, para que no momento certo (que dependerá de cada um) tenhamos a atitude para ter uma vida mais leve, sem o peso de viver para trabalhar.

*Marcus Nakagawa é sócio-diretor da iSetor, professor da ESPM e diretor-presidente da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade.

Uma O.S., segundo Eurico de Andrade Azevedo, é uma qualificação, um título, outorgada a uma entidade privada, sem fins lucrativos, para que ela possa receber determinados benefícios do Poder Público (dotações orçamentárias, isenções fiscais etc.), para a realização de seus fins, que devem ser necessariamente de interesse da comunidade.

As O. S. também fazem parte do terceiro setor. Lembrando que, segundo Stephen Kanitz, no site filantropia.org, o primeiro setor é o governo, que é responsável pelas questões sociais. O segundo setor é o privado, que cuida das questões individuais. Com a falência do Estado, o setor privado começou a ajudar nas questões sociais, através das inúmeras instituições que compõem o chamado terceiro setor. Ou seja, o terceiro setor é constituído por organizações sem fins lucrativos e não governamentais, que tem como objetivo gerar serviços de caráter público.

No mercado as pessoas da área comentam que ainda existe um quarto setor, aquele que arrecada os bens públicos para fins privados, ou seja, a corrupção ou ainda a “Pilantropia”.

Não é só a embalagem que deve ser sustentável. A estratégia também precisa ser

Marcus Nakagawa*

Hoje em dia o tema sustentabilidade pode ser observado em todos os lugares: na televisão, nos jornais, nos anúncios, nos desenhos animados, nos filmes, nas camisetas, nas marcas das empresas, entre tantos outros lugares. Nas mídias sociais e redes, por exemplo, vemos muitos “posts” com animais sofrendo e com tema social de todo o mundo.
Ainda constata-se que a maioria dos bancos brasileiros torna-se mais verdes, assim como grande parte das empresas de cosméticos avaliando seus fornecedores com base nesse parâmetro. A indústria automobilística e a logística pensam na emissão de CO2, as indústrias eletroeletrônicas desenvolvem a reciclagem, as empresas extratoras de minérios e derivados da natureza estudam seu legado na região, enfim, diversas ações estão sendo feitas em busca de um objetivo maior e comum.
Com este conceito sendo colocado diariamente em pauta, existe a questão da complexidade do tema e como as empresas inserem a sustentabilidade nas suas atividades e processos, produtos e embalagens.

Na pesquisa “Comunicação e sustentabilidade: O que a sua organização pensa e faz nesta área?” realizada com as 25 grandes empresas do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), 90% comentou que possui a sustentabilidade incorporada na estratégia de negócios. Já de acordo com pesquisa divulgada pela Accenture e United Nations Global Compact, 93% dos 776 CEOs entrevistados acham que a sustentabilidade será fundamental para o futuro das empresas.

Entretanto, a questão colocada é exatamente o que se entende por colocar a sustentabilidade na estratégia de negócios da empresa? Com certeza não é somente ter uma embalagem reciclável ou com partes recicladas, mas sim um programa ou alguns processos de desenvolvimento sustentável em sinergia com os seus produtos, embalagens e serviços. Não estamos considerando somente a bela frase de missão, visão, valores e objetivos da organização, e sim de quais produtos e serviços vêm o faturamento e lucro destas empresas.
E quando a empresa, no Brasil, faz um contrato social e posteriormente define quais serão as formas de faturamento e lucratividade, isto passará necessariamente por um produto ou um serviço à sociedade como um todo. Dessa forma, seja este produto ou serviço qual for, na sequência haverá a sua produção em massa, distribuição, venda e coleta (take back and recycling), e é justamente nestes pontos processuais que elas devem se adequar a normas, regras, legislações, certificações etc.
Diante disso, a questão da inserção da sustentabilidade na estratégia e nos negócios da empresa está sendo bastante discutida, e implementada em parte das corporações brasileiras, porém não na sua maioria nem de forma orgânica, e isso se agrava ao considerarmos também as pequenas e médias empresas.
Sendo assim as embalagens, produtos e serviços mais sustentáveis, somados aos processos, práticas, ações, indicadores e planos têm que estar intimamente ligados à estratégia das empresas. Isso realmente é inserir a sustentabilidade na estratégia de negócios, não somente uma maquiagem verde nos produtos e serviços.
Agora estas oportunidades estão mais próximas do Brasil, pois sua situação econômica e social está cada vez melhor e todos os focos de investimentos se voltam também para este país dos mercados emergentes. Temos que mostrar o poderio criativo e inovador das empresas locais buscando uma real transformação cultural, social e focado no desenvolvimento sustentável.

*Marcus Nakagawa é sócio-diretor da iSetor- gestão integrada; professor da ESPM; e diretor-presidente da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade.